"A vida depois dos 30", vista por quem já passou dos 30

Temos a crise dos 18 anos. E depois a dos 25. E a dos 30. Dos 31 anos. Dos 32. Acho que você já entendeu

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"Por que, Deus, Por quê?", perguntou o Joey num episódio clássico de Friends, Aquele em que todos fazem 30. Era assim que eu me sentia há quase dois anos, quando o calendário perigosamente se aproximava da data que me transformaria num trintão.

Os 30 chegaram e, nem bem eu me arrumei na cadeira, já era hora de comemorar 31, data que já ficou para trás há nove meses. Com os 32 ali na esquina - e os 40 bem mais próximos que os 20 - eu, meio que sem querer e sem rumo certo, passei a navegar pela quarta década de vida. A primeira adulta de fato, um passo além da fase do adulto não praticante dos vinte e poucos.

 

Envelhecer é a única forma de ter uma vida longa e disso ninguém vai reclamar. Fora que sou o primeiro a concordar que os 30 são os novos 20 e que 32 não é nada demais, só uma etapa na história de cada um. Mas, verdade seja dita, completar mais um ano de vida (ou iniciar uma nova década) tem seus traumas.

Os primeiros, que vivi lá em 2015, são da ordem das coisas idiotas, mas nem por isso  pouco importantes. Chegar aos trinta e poucos e não ter conquistado o que gostaria, ainda mais num mundo em que tudo é compartilhado e comparado ao extremo nas redes sociais, gera pânico. Além disso, todo mundo que manda bem na arte de procrastinar, tipo eu, sabe o que é desejar fazer algo há anos, mas não realizar o sonho por conta da preguiça de sair do sofá.

Pode ser uma tatuagem, uma viagem ou um curso. Pode ser procurar um emprego novo, se mudar de casa ou retomar o contato com amigos queridos. Ou ler mais, fazer exercícios físicos e parar de perder tanto tempo de forma inútil. Enfim, aquela listinha de coisas que a gente muitas vezes acaba empurrando para depois - até que o depois não é uma mudança de ano, mas uma passagem de década. Aí, com a coisa ficando séria, corremos desesperados atrás do prejuízo e tentamos vencer a inércia.

É a temporada das listas, promessas do que faremos antes do temido dia chegar. E, veja bem, não há nenhum problema em listar alvos e tentar alcançá-los - na realidade, essa é uma boa forma de vencer a danada da procrastinação. O problema, e isso eu só aprendi na marra, digo, na terapia, é que crescer envolve admitir que não podemos ser tudo que gostaríamos e que simplesmente não temos controle sobre tudo que ocorre em nossas vidas.

Abandonar aqueles sonhos de infância e escolher um caminho são decisões um pouco mais complexas do que gostaríamos. Fora que a vida, ao contrário do feed do Instagram, é sempre menos colorida e com um pouco mais de problemas do que gostaríamos de admitir. É o que garante  a Mônica para a Rachel, no primeiro episódio de Friends, “bem-vinda ao mundo real. É uma merda. Você vai amar”.

 

É difícil dizer o que envelhecer trouxe para mim, mas deixemos desse jeito: se for um sinônimo para amadurecimento já está de bom tamanho. Aos vinte, tracei objetivos e fiz planos mirabolantes. Pensei em metas, ano a ano, e sonhei com onde eu gostaria de chegar, tudo entre um bar e outro. Falhei miseravelmente em muitas delas. E cá estou eu, aos 30 e poucos, num rumo completamente diferente do que o imaginado - e não é que parece ser o caminho certo?

A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos, cantou Lennon.  “O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”, escreveu Guimarães Rosa.

Os trinta e poucos trouxeram também mais clareza quanto a transitoriedade das coisas. Isso pode valer para empregos, religiões, relacionamentos, amizades e decisões diversas, mas, para mim, tem sua face mais importante na própria vida. Ou, para ser mais exato, na noção de que ela é passageira.

Perdi minha mãe aos 25 anos, de forma repentina. Lidar com sua ausência tem sido o desafio mais complexo que enfrento desde então, mas, de uns tempos para cá, complicado mesmo tem sido lidar com a certeza de que a perda de alguém querido - e até eventualmente a minha própria partida - é apenas questão de tempo.

O momento nós nunca sabemos, o que só acrescenta mais dúvidas - e medo - na equação. É como falou o Woody Allen: “não é que eu tenha medo da morte, mas simplesmente não quero estar aqui quando isso acontecer”.  E, mais dia, menos dia, vai acontecer.

Na época que minha mãe se foi, no comecinho de 2011, recebi diversas mensagens de apoio e abraços, muitas delas vindas de pessoas que eu nem conhecia. De todas, uma teve um efeito especial em mim: a vida é como uma viagem de trem, me disseram. Quando a gente embarca numa estação, o trem já está cheio de passageiros que tinham embarcado antes e que se tornam nossas companhias por um tempo. Mas nem sempre as pessoas descem na mesma estação - e precisamos lidar com sua ausência. Ao mesmo tempo, gente nova vai chegando e tomando seu lugar, pessoas que em algum momento nos verão descer.  

 

Pode parecer bobagem, mas aos 30 e poucos me dei conta da minha própria mortalidade. O corpo, claro, vai ajudando. As ressacas são piores, o sedentarismo cobra um preço mais alto e as visitas ao médico ficam mais frequentes. Ou deveriam ficar, não fossem os homens tão acostumados a ignorar sinais e procrastinar consultas, até com um orgulho meio machista. Ao pensar no futuro, pela primeira vez penso com seriedade em quem devo ser no presente.

Tudo isso afeta aquela listinha de coisas que são prioridades para a gente. A transformação acontece meio que sem notarmos e, claro, não segue um padrão. Cada pessoa encara a nova idade de uma forma. Eu, que há pouco mais de três anos vivia com um mochilão em hostels da Argentina, me peguei comprando plantas, decorando uma casa, preferindo beber menos e comer mais e trocando o sonho de uma vida na estrada pelo desejo de uma vida com viagens sim, sempre que der, mas também com muito tempo perto das pessoas que eu amo, fazendo coisas simples.

Como disse o Nissim Ourfali, “Quando a gente viaja é irado, é 10, mas o melhor é quando vamos pra Baleia”. Nós achamos que era só um vídeo engraçadinho, mas na realidade era alguém nos dizendo que viajar é legal, mas viajar com quem se ama, mesmo que para uma praia mais ou menos, é melhor ainda.

É provável que os 40 mostrem que estávamos errados em várias coisas aos 30. Tomara que sim. A beleza da vida, no fim das contas, é não saber.


publicado em 08 de Agosto de 2017, 00:00
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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